Grande concurso literário!
“Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!”. Amilton tomou um susto quando leu esta frase numa revista esquisita que nunca tinha visto antes. Que coincidência, pensou, justamente o nome de sua mulher. A frase em si não tinha lhe chamado a atenção. Mas se deparar com o nome da mulher divertiu Amilton, que levou a tal revista para casa. Alice leu a frase, mas não compartilhou da mesma fascinação do marido. “Mas e aí? Você vai participar do concurso?”, perguntou, levemente entediada. Na verdade Amilton não tinha cogitado esta hipótese. Nunca tinha se interessado muito por literatura. Lia, no máximo, uns best-sellers que a mulher levava pra dentro de casa, e nunca se imaginou escrevendo algo para os outros lerem (na verdade, Amilton escrevia muito – relatórios, petições e requerimentos – mas nada que as pessoas realmente lessem). “Ué, escreve aí. De repente rola uma grana”, disse Alice. Com os dedos mirados para a revista Amilton mostrou à mulher que não havia prêmio em dinheiro. “Xiii... que droga. Então pra quê escrever, né?” concluiu sua mulher, dando meia-volta em direção cozinha e deixando Amilton plantado na sala com a revista nas mãos. Depois do jantar, Amilton foi para o quartinho do computador, com a revista a tiracolo. “Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!”. Que diabos de frase é esta?!, pensou. Na verdade tinha ouvido poucas vezes a palavra mitômano. Só se lembrava do debate político
[Este texto foi originalmente feito para o primeiro concurso literários da Revista Piauí, em fevereiro de 2007. Não ganhei o concurso, mas em compensação, o que "ganhei" por conta desta molecagem, não tem preço algum, não é, "Alice"?]